Na madrugada de 15 de abril de 1912 ocorreu um dos maiores naufrágios de um navio de passageiros em nossa história recente. Cerca de 1500 pessoas morreram naquela noite gelada em meio ao frio do Oceano Atlântico. A maioria das vítimas era pobre, não por coincidência, já que faltaram botes salva-vidas para socorrer todos os que lá estavam.


Titanic ficou famoso no século XX justamente por marcar uma tragédia que poderia ter sido mitigada, caso a empresa responsável tivesse optado por disponibilizar mais botes, o que implicaria certo comprometimento da vista de quem ocupava a primeira classe, uma vez que os botes a mais ficariam numa posição que tiraria o gozo das lindas imagens de uma
longa viagem entre a Inglaterra e os EUA. Logo, entre pensar num provável acidente e criar condições para amenizar seus efeitos ou deixar livre a paisagem marítima aos que pagaram mais para estarem ali, a segunda foi a mais interessante.


Dito isto, uma cena muito conhecida desse episódio foi a do navio naufragando e a orquestra tocando, cujo o intuito, segundo os relatos, era o de acalmar os passageiros. Em especial, esta cena é a transcrição ipsis litteris do contexto no qual estamos imersos atualmente em virtude da pandemia da Covid-19. Já não nos causa tanto espanto, para
alguns nenhum, 500 mil mortes em 15 meses, 2500, 3000 mil mortes ao dia. Não importa! O que vale, de fato, é recuperar o mais rápido possível “o tempo perdido”, o tempo perdido cobrado pela sociedade extremamente acelerada em que vivemos, uma sociedade conectada e ativa 24 horas por dia, 7 dias da semana. Uma sociedade culturalmente capitaneada pela lógica neoliberal do “Yes, you can”, “Just do it”, do exagerado individualismo, cujo ideal de liberdade é somente um slogan que não faz eco, nem encontra guarida na realidade cotidiana. Valores que estão impressos na ordem do dia das empresas de consultoria que, em parceria com a nossa instituição, querem ensinar os profissionais da educação pública, grosso modo, a formar “empreendedores de si mesmo”. Estamos presos e amarrados numa jaula de ferro, como cunhou o sociólogo alemão Max Weber ao referir-se à radicalização dos processos de racionalização capitalista e, portanto, burocráticos.


No interior dessa jaula não temos tempo para empatia, para alteridade, para o acolhimento, para sermos humanos. Não temos tempo para nós, quem dirá em relação aos outros, até porque o outro passou a ser meu grande inimigo e adversário nessa corrida desenfreada pelo sucesso e pelo desempenho, na qual os vencedores sempre são os mesmos, os cada vez mais ricos e poderosos do mundo. Enquanto isso, parafraseando o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, estamos nos tornando uma sociedade composta por pessoas fracassadas, deprimidas e cansadas, efeitos estes ainda mais avassaladores em tempos de pandemia.


Logicamente, o campo educacional não tem ficado alheio ao cenário descrito. Já paramos para refletir que estamos presos nessa jaula de ferro, acelerados numa velocidade sobre-humana, num tempo integral, 24 horas por dia, 7 vezes por semana, sentindo-nos fracassados, deprimidos e cansados? Já paramos para notar onde está nossa humanidade enquanto preenchemos planilhas, damos aulas síncronas, participamos de infinitas reuniões online, atendemos a comunidade escolar da nossa instituição? Já paramos para notar que estamos fracassando no que tange à valorização da vida, da compaixão, da empatia, da generosidade e da alteridade? A pergunta é: onde queremos parar com isto? Queremos recuperar um tempo que perdemos por conta de uma pandemia? Infelizmente ou felizmente
não é possível. Estamos dentro de um liquidificador ligado na máxima potência, o qual nunca é desligado, nem mesmo quando dormimos, porque aposto que muitos têm tido pesadelos com nossa atual rotina de trabalho e de vida.


Tudo isto relatado acima tornou-se ainda pior quando do falecimento do colega e amigo Nildo Aparecido, professor de Geografia, amado e querido por todas e todos da comunidade IFC/Brusque. Muitos colegas têm gravado em seus celulares a última mensagem do Nildo que dizia uma única palavra, sinalizando que o pior estaria por vir: “internado”. Depois disto, nunca mais podemos conversar com ele. Mais uma vida ceifada pela pandemia e pela irresponsabilidade das autoridades que estão à frente da gestão desta crise sanitária. Em pensar que Nildo estava há uns 10 dias do seu dia “D” e hora “H” na fila da vacinação dói mais ainda. Dói ver a esposa e a filha desamparadas por perderem o marido e o pai, dói ver alunos, alunas e colegas do Nildo estarrecidos com a perda, dói saber que quando voltarmos presencialmente, aquela figura do professor amigo de todos e
todas, brincalhão, ativo em vários projetos, principalmente a Rádio IFC e seus projetos sobre meio ambiente, não estará lá para continuarmos lutando juntos por uma educação pública e democrática, que era também sua bandeira de luta.

Nildo se juntou ao número de quase 500 mil mortes que o país parece se esforçaem alcançar. Nildo virou um número em meio a tantos. Virou memória como tantas outras vidas que foram ceifadas neste caos que se estabeleceu. Virou uma das pessoas que não alcançou o bote de salvamento. Virou uma nota de pesar, que em poucos dias dará lugar a uma nova engrenagem nesta roda educacional que não parou. Para nós que convivemos com ele, restará tentarmos enaltecer sua vida e sua obra, sua consciência política e seu legado na geografia e no coração de todos nesta instituição. Nildo não é um número. Nosso amigo é único e importante. Nildo é o corintiano que enaltecia seu time de futebol, o amigo
para quem metade do Campus ligava para conversar sobre os problemas do cotidiano, aquele que passava diariamente da biblioteca à secretaria em seus momentos de pausa, fortalecendo as relações de amizade. Nildo foi o professor mais premiado do Campus em projetos de Pesquisa e Extensão, regente de turma, amigo de discentes de forma única, companheiro de todas horas, apaixonado por ensinar mas também por aprender, criou
gosto pelas cervejas artesanais e aprendeu a conviver num novo Estado depois de anos como professor em SP. Apaixonado pelas viagens e pelas praias, transformou a praia de Cabeçudas numa extensão da sua casa. Nildo era o colega das novas ideias, de apoio ao sindicato, dos churrascos em casa, das conversas de corredor, do apoio a quem precisasse.
Era pai de uma menina, mas também de vários colegas que entravam com menos experiência em docência. Era o coordenador do NGA e quem plantou a primeira árvore no novo Campus. Árvore essa que não verá crescer e dar frutos. Árvore esta que, como nós, recebeu uma semente do conhecimento desta pessoa incrível.


Nosso amigo partiu e mal tivemos tempo para viver o luto, haja vista que a
instituição suspendeu as atividades no Campus por um dia, declarou três de luto oficial e vida que segue, afinal, a máquina precisa continuar a todo vapor. Não há saúde emocional que aguente 15 meses de trabalho remoto, uma perda como esta e ainda todo trabalho em nossas costas, no qual a burocracia é quem dita o ritmo da esteira. Quantas vidas
precisarão ser perdidas para que tenhamos consciência de que estamos num cenário à la Titanic, onde a tragédia está acontecendo e a burocracia rege a orquestra para tentar nos fazer acreditar que está tudo normal? Por fim, reforçamos, caso tenhamos nos perdido em alguma crise existencial, que não somos máquinas, somos seres humanos ou ainda seres do que ainda nos resta de humanidade.
Nildo não era uma máquina. Nildo não era um número. Nildo era nosso amigo. Nildo era meu amigo! Nildo presente!

Texto escrito por Gabriel B. Coelho e colaboração de Eddy E. Eltermann, ambos professores do Instituto Federal Catarinense/Brusque